Quer saber mais de como foi o 2 BDSM Brasil? aqui o link para fotos com relato do sub Fiel.

 

http://www.bdsmcampbrasil.com/#!blank-11/wxjab   

 

Carros e edifícios vão se distanciando, deixando para trás os resquícios da grande capital paulistana, trazendo à vista uma estrada só de pinheiros naquela tarde cinza de outono. Impossível dizer o que se passava na cabeça daqueles 10 homens que estavam deixando de ser advogados, médicos ou professores e se tornando prisioneiros por vontade própria... Ou melhor: submissão própria. 

 

Mairiporã, 44 quilômetros afastada de São Paulo, era o destino. Lá, uma mansão bem no meio da mato se transformou em prisão por três dias. BDSM Camp Brasil, uma vivência fetichista a qual poucos, no mundo, têm acesso. Uma prisão na qual se confina a pessoa que somos durante todos os dias do ano, mas que torna livre uma outra pessoa que habita cada um dos que estavam por lá - algumas já conhecidas, outras querendo se descobrir. 

 

A missão foi adotada por seis dominadores, praticantes experientes em envolver, guiar e comandar os submissos por meio de sedução, disciplina, centenas de instrumentos e controle psicológico. Brenno, Barbudo, Luis, PC, Guto e Marck, alguns dos maiores nomes do sadomasoquismo nacional, trouxeram homens dos quatro cantos do país em busca de um prazer que não tem nada a ver com sexo nem com loucura. Algo que só se explica vendo...

 

O primeiro contato é o mais assustador. Alinhados, os prisioneiros aguardam em uma sala vazia e quieta a sua vez de serem levados do cativeiro à cela. Gritos, choques, um banho forçado e uma corrente com cadeado no pescoço. Não há mais retorno. 

 

Observei um a um, todos muito diferentes, de estilos e vidas diferentes, mas que encontraram suas semelhanças no medo - olhos trêmulos que não conseguiam mirar nenhum dos comandantes diretamente.

 

A primeira sessão coletiva era de apreensão. O que estariam tramando? Os dominadores andavam para lá e para cá, pediam acessórios para nós, assistentes, estudavam as fichas com preferências e rejeições de cada preso, até que, como em um estalo, em menos de 20 minutos, todos estavam de alguma forma em algum universo diferente. A sala estava preenchida por corpos amarrados, suspensos, imobilizados ou se arrastando em humilhação. 

 

O universo do BDSM, infelizmente, foi jogado à vista do público geral da forma errada. "Bondage" (amarração com cordas, fitas adesivas, panos e nós), "disciplina", "dominação" e "submissão" (saber o seu lugar e a quem servir ou respeitar) também fazem parte da sigla, junto ao "sadismo" e "masoquismo" que muitos acham conhecer. E quem entrou no acampamento, aprendeu na pele que não se trata apenas de tapas e roupas de couro.

 

Um deles se transformou em cachorro, especialidade do dominador Marck, de terno sempre engomado e fino trato. Ele o colocou para brincar com seu cãozinho de estimação, que durante todo confinamento criou um clima transumano por onde passava e rosnava. 

 

Clima que ganhava certo terror com outro dominador, o Luis. Com seus mais de 1,80 metro de altura, ele joga com o psicológico. Com passos vagarosos e firmes, postura sempre ereta, olhar superior, movimentos friamente calculados e uma coleção de máscaras cinematográficas, arrepiava todos os pelos da vítima só de falar pertinho, em seus ouvidos, como iria torturá-la.

 

A cada sessão e a cada jogo, descobria-se um novo instrumento, ou uma nova utilidade para outros. O dominador Guto é o que mais gosta desses brinquedinhos. Ele espancou nádegas, inseriu consolos de todos os tipos e tamanhos, privou os sentidos em camisas de força inescapáveis e até eletrocutou as partes mais sensíveis de seus reféns. 

 

Ele é um dos sádicos mais criativos que já vi, perde apenas para Brenno e suas invenções. Dá para ver como se divertia (e como divertia o público) ao mumificar quatro homens de uma vez só ao redor de uma pilastra, ou quando transformou o ânus de um dos maiores prisioneiros em uma nova caçapa na mesa de sinuca mais sádica que alguém já viu.

 

Sadismo, gostar de causar dor e de ver as consequências da dor causada, é algo que se nota no olhar de satisfação por detrás das máscaras sensuais do dominador PC. Quando menos se esperava, ele surgia para pisar, chicotear e abusar um pouquinho mais prisioneiros que já estavam de alguma forma voltando à terra. Eu mesmo me vi em suas mãos enquanto me recuperava após receber por todo o corpo a cera de uma vela que queimava sobre mim.

 

Essa vela me levou aos céus antes que pudesse derreter toda. Me tirou da posição de respeito que tinha sobre os submissos e me colocou no mesmo lugar deles. O dominador Barbudo descobriu onde me pegar. É assim que ele funciona, descobrindo pontos-fracos. Ou será pontos de prazer? Ele conhece cada um dos prisioneiros, e foi o único capaz de fazer o mais difícil deles gozar: pasmem, um heterossexual que se excitava fortemente ao escutar como sua esposa o traia com o Barbudo nas fantasias que se tornaram realidade na boca do dominador.

 

Por falar em excitação, é nesse ponto que se quebra o maior dos tabus do sadomasoquismo. Não é sexo, não é suruba nem a putaria que figura a imaginação de quem tem a mente fechada. É uma outra forma, teatral e acima de tudo psicológica, de se chegar ao clímax. Muitos ali relataram ter orgasmos múltiplos mesmo sem ter o pênis ereto. Não se trata de perversão, mas de algo muito mais sublime. 

 

A busca do dominador, mais do que seu próprio prazer, é o prazer do submisso que está em suas mãos. Quem esteve presente nas execuções de cada movimento consegue ver o tamanho do esforço e energia gasta por eles na tentativa de acertar o gosto e o momento de cada prisioneiro. E eles acertaram muitas vezes, até mesmo quando a vontade de alguns era só observar em seu voyeurismo solitário. 

 

São, seguro e consensual. Estas três palavras regem o BDSM puro, aquele que essa vanguarda (de dominadores e submissos) está tentando reconstruir no Brasil. Mas tem um único momento em que o "consensual" é deixado de lado: o temido, às vezes desejado, castigo.

 

Ele sempre acontece, alguém sempre erra em sua tarefa, e desta vez fui eu e mais três companheiros da equipe de apoio. Colocamos a boca onde não devíamos, e nos vimos em uma sala escura, com uma única lâmpada soturna sobre nossas cabeças e uma máquina macabra no meio da sala, na frente de todos. Nos prenderam ali, um a um, com a bunda exposta a todos os olhares assustados e sedentos, em dez fortes chicotadas de cada dominador. No silêncio, só se ouvia os estalos seguidos de interjeições de dor de quem assistia. 

 

As memórias arrepiam o meu corpo até o momento, e acho que durarão horas. São marcas que não acabam na sessão, ficam comigo por dias, lembrando-me de todos os momentos em que encontrei meu eu mais íntimo a cada momento que encosto sem querer em um centímetro de pele que doeu e que deu prazer. Não é medo, é o respeito e a entrega de si mesmo em autoconhecimento.

 

Optei por não usar máscara, e um dos dominadores me perguntou durante a punição gravada e fotografada: "Sem máscara?". Respondi, orgulhoso, que não tenho vergonha de quem sou. E para quem ainda acha que um dominador só quer seu próprio prazer, ou que seus "tapas" são apenas físicos, ele esperou dois dias para me dar as palavras finais: "Eu sou bem verdadeiro, não tenho vergonha de quem sou. Quem tem é a sociedade, e eu vivo nela". 

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